22 novembro 2016

TRANSBORDEI


Hoje caminhando pelo mesmo caminho que faço todos os dias senti que não aguentaria. Apertei o passo, tentei respirar, olhei para o céu e supliquei baixinho “agora não”, mas já faz algum tempo que meus pedidos não são ouvidos. Tentei concentrar a mente naquele processo que ainda não terminei, e como precisava urgentemente arrumar minha mesa. 
Lembrei-me das compras do mercado que já estavam atrasadas a mais de um mês, e nem uma dessas coisas me conteve. De repente notei gostas escorrendo pelo chão. Quando finalmente entrei no prédio corri para o banheiro e então jorrei.

Quando você foi embora me disse que não podia ficar, que eu transbordava demais. Que meu excesso dificultava as coisas, que não havia muito espaço para nós nas minhas inúmeras sentimentalidades. Tentei me conter naquele momento sabia que iria transbordar de novo, mas como controlar o incontrolável? Não escolhi ser assim tempestade em meio à calmaria. 
O meu desejo é apenas um: transbordar até quase tudo esvaziar, o problema de verdade é esse quase que fica no meio da história, quase não é ponto final, não chega nem ser ponto-vírgula, quase é texto inacabado com o sinal do world mostrando que a história não acabou. 

O nosso problema é que você também já estava cheio e qualquer gota que eu colasse entre a gente te transbordaria. Talvez tenha sido esse nosso erro. Não transbordar, não deixar que tudo fosse expulso do nosso corpo como uma febre forte que precisa queimar para avisar que algo estava errado para então se dissipar. 
Ignoramos as rachaduras tão visíveis, preferimos mudar de cômodo ao invés de arrumar a goteira que pingava sobre nossas cabeças. Quando finalmente nos demos conta eu transbordava por qualquer coisa.

Hoje foi assim, estava tudo bem. Até eu olhar as margaridas, até eu sentir o teu perfume em outro alguém, até eu colocar a cópia da chave no mesmo lugar de sempre e lembrar de que você sempre me dizia para guardar melhor. 
Estava tudo na perfeita santa paz até ouvir a nossa música na rádio, até o porteiro do meu prédio me perguntar pela milésima vez sobre você. Estava tudo bem até levantar e perceber o silêncio no café da manhã. Estava bem até meu coração não se caber nesse mar de solidão que é ficar sem você, estava tudo calmo até ele resolver transbordar e não se conter. E por isso que hoje meio sem querer, meio sem perceber transbordei de você...

9 comentários:

  1. Saudade dos teus textos sentimentais, Cami ♥ Tem como amar e não transbordar? Tem como sentir e não espalhar isso pelo mundo? Amei.

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  2. UAU,é só o que posso dizer *--*
    Toda a sentimentalidade,o meu reflexo nessa moça tão cheia de tudo,nossa,impossível não amar ♥♥
    Me ensina a escrever assim? Rsrsrs
    Beijos enormes ^.^

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  3. Oi Cami,
    Texto maravilhoso como sempre, sempre faz a gente refletir um pouquinho.
    Bjs e uma ótima noite!
    Diário dos Livros
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  4. Olá minha linda.
    Que texto maravilhoso. Fiquei com o coração apertado quando comecei a ler.
    E no sabemos que muitas vezes "transbordamos" de algumas pessoas ao longo dessa jornada que chamamos de vida.
    Beijocas Ca.

    meumundosecreto

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  5. Que texto mais lindo, sério amei. O final, senti um duplo sentido.


    Beijos,
    Blog Gaby DahmerFanpageInstagramTwitter

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  6. Oi Camila. Que texto maravilhoso! Você tem uma construção narrativa muito boa que faz com o leitor se envolva na história. Adorei.
    É muito difícil quando relacionamentos não dão certo, ainda mais quando você está acostumada com a presença da pessoa no seu dia-a-dia.

    Beijos
    Psicose da Nina | Instagram

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  7. Camila, tudo bem?
    Que talento heim?! Lindo texto, sério, amei!
    Beijos!

    http://excentricagarota.blogspot.com.br

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  8. Que lindo Camila
    Gosto muito de vir aqui ler seus textos. Faz tempo que não publico os meus no blog, mas quando leio seus escritos me volta a vontade de transbordar em palavras.
    Beijos


    Vidas em Preto e Branco

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Germine aqui um pouco de amor. ♥