25 outubro 2015

OUTUBRO ROSA | ELA VENCEU


Um belo dia ela começou a notar um certo inchaço ao redor de suas mamas, mas pensou que não fosse nada de importante, talvez a idade, a menopausa, a rotina agitada ou apenas uma inflamação leve a tivesse atingindo. Um mês depois a dor debaixo das axilas havia ficado insuportável e ao passar a mão um caroço foi notado, não tinha mais jeito era hora de procurar o médico, coisa que ela não gostava, da última vez que fora em um ele a tirara os poucos prazeres dessa vida "comida temperada e doces". Mas ela não se lamentou, agradeceu pelos numerosos anos em que pode ser feliz comendo coisas boas e tratou de fazer arroz sem sal, e doces virou tabu.
Uns dias depois veio a confirmação que seu coração já sussurrava Câncer de Mama em estágio avançado, quase uma laranja média era o tamanho de seu caroço. Como qualquer ser humano ela recebeu a notícia com lágrimas de medo de não poder ver a última filha casar e lhe dar netos. Ficou triste, permitiu-se um tempo sozinha, chorou até o peito parecer esvaziar, não murmurou nem questionou a Deus, apenas aceitou que na roda gigante da vida sua vez tinha chegado.

Deixou o choro cessar e tratou de lutar por pelas coisas que fazia seu coração sorrir, tirou um sonho antigo da gaveta e decidiu que queria se casar, afinal se sua vida poderia ser mais curta do que desejava ela iria se despedir com uma aliança dourada no dedo anular da mão esquerda, depois de três décadas juntos o seu maior desejo é que seu amor fosse abençoado por quem lhe deu a vida. E assim todos os filhos, netos, sobrinhos, vizinhos e quem mais tinha amor por eles resolveu ajudar para que seu sonho fosse realizado, o mundo até pode não ser uma fábrica de realizações de desejos, mas se a gente se esforçar e for com o coração as coisas acontecem. E assim foi, em um bela tarde sol, onde as flores pareciam todas quererem enfeitar uma pequena igreja ela entrou com um vestido clarinho e simples e entrelaçou sua mão com a mão de um velhinho simpático e ali na presença de um padre e pessoas que os amavam eles disseram sim e casaram.

Tudo que ela mais queria se realizou, poderia até dizer que qualquer coisa que acontecesse agora ela aceitaria de bom grato, mas se fosse assim ela não seria a pessoa dessa história. Ela decidiu lutar, decidiu que queria mesmo era viver, que queria não ver apenas sua última filha casar e seu neto, mas queria ver seus bisnetos crescerem. Disse pro seu medo que ele trata-se de ficar quietinho porque tinha muita vida correndo em suas veias. Então ela se cuidou, fez quimioterapia, viu seus cabelinhos ficarem fracos, mais brancos, até que um dia eles caíram enquanto ela dormia, acordou, chorou, mas raspou, seu coração se apertou, mas ela continuou. Fez rádio, ficou de cama, sem forças, foram dias difíceis, dias chuvosos para todos. E o que ela não queria então foi lhe comunicado "precisaremos retirar a mama" de fato os dias chuvosos haviam virado uma grande tempestade. A doença já havia lhe roubado as forças o cabelo e agora um seio. 
E se tudo isso já não fosse chuva demais em sua vida, seu companheiro de vida, seu amor, seu esposo resolveu que queria espalhar seu brilho um pouco mais longe, ele resolveu cuidar dela lá de cima, lá do alto, perto de Deus. E eu vi uma mulher de garra cair, finalmente havia desistido. Seu sorriso ficou amarelo e raro, dias de sol eram escassos.

Eu a vi perder a memória, não reconhecer meus filhos, não se lembrar que estava em meu casamento e dois minutos depois continuar a falar de coisas da vida, vi pessoas querida que tinham o dever de cuida-la simplesmente perder a paciência. Vi seu sofrimento ao se sentir um peso, algo que não prestava mais e só dava trabalho, presenciei a perda dos seus movimentos, chorei ao ver que ela havia se tornado um bebê grande dependente de pessoas que antes dependiam dela. O pior foi esperado, seus dias eram todos contados em um leito de uma cama.

Mas então alguém que lhe amava muito bateu o pé e disse não a tempestade que havia em cima dela. E vi uma menina se tornar em mulher para cuidar da pessoa que havia lhe dado a vida. Ela foi os braços, as pernas, lhe deu comida e remédio nas horas certas, deu banho, teve paciência ao perceber que as mesmas perguntas eram feitas várias vezes, e então eis que alguém lá em cima percebeu que naquelas veias fortes ainda havia muita vida, muita história a ser contada. Ela voltou a se locomover sozinha, saiu das fraldas, sua memória lhe pertencia novamente.
Ela celebrou o casamento da sua última filha, esteve de pé sozinha nas fotos, comeu churrasco porque se permitiu ser feliz, recentemente pode ver essa mesma filha receber a dádiva de ser mãe e pode segurar em seus braços mais um neto. E nesse momento ela apenas olhou para o céu e agradeceu.
E eu agradeço todos os dias por saber que em minhas veias corre o mesmo sangue de uma mulher batalhadora, o mesmo sangue de uma vencedora.


Esse post é para minha avó que venceu o câncer e para todas outras mulheres que venceram e para aquelas que ainda estão na batalha.

17 comentários:

  1. Adorei o texto, você é uma ótima escritora. Fico feliz por você e por sua avó, já que a minha não teve este final feliz.
    http://safiraalgner.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada Safira.♥
      E lamento que sua avó não conseguiu, mas tenho certeza que lutou do mesmo jeito.
      Beijo

      Excluir
  2. Teu texto ficou incrível. Um tempo atrás, quando minha recebeu o diagnóstico, consegui vivenciar cada trecho que citou. Foi uma batalha enorme e hoje me sinto mais forte vendo o quanto ela foi guerreira com a doença e o quanto está bem depois de tudo que passou. Fico feliz que sua avó também tenha vencido ♥

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. escrevendo rápido como até as palavras iaheuae, minha mãe*

      Excluir
    2. Acredito que muitas de nós temos testemunhos como o da minha avó e da sua mãe Kelly, e algumas infelizmente como no caso da Safira não tiveram a mesma sorte.
      E fico muito feliz ao saber que sua mãe também venceu essa guerra. ♥
      Beijo

      Excluir
  3. Que demais Raposinha . Incrível. To arrepiada. Me emocionei demais. Lindo lindo. Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Há Ma, quem dera fosse por minha causa, mas a história é toda da minha avó, o mérito é todo dela. ♥
      Beijo

      Excluir
  4. Que linda história, Camila. Estou emocionada, e tem como não estar?
    É para se orgulhar mesmo, ter o sangue dessa mulher incrível em tuas veias, com essa luta cruel, mas cheia de amor. Fico muito feliz por ela ter vencido e você nos contar essa história. Feliz também por ela ter tido todo apoio cheio de amor que precisou.
    Um beijo

    Com carinho, Beca; Café de Beira de Estrada

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Há Beca, obrigada.
      E realmente a história não só da minha avó, mas de todas mulheres que travaram ou travam lutas gigantescas contra essa doença deveriam estampar jornais na minha opinião.
      E obrigada pelo carinho de sempre.
      Beijo ♥

      Excluir
  5. Texto forte, emocionante e muito bem escrito!
    Como sua avó foi forte. Obrigada por me fazer ler esse texto, refleti sobre algumas coisas como quando reclamamos da nossa aparência ou quando nos submetemos a pessoas que não nos merecem. Falo isso, porque achei muito linda a história de amor dela, isso que é amor! Na saúde e na doença.
    Enfim, mil vezes amei! Parabéns princesa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Há Lu fico feliz que de alguma forma a história da minha avó tenha falado com você.
      E o que você falou é verdade, ás vezes ligamos tanto pra nossa aparência e coisas materiais que esquecemos de dar o valor merecido ao fato de estarmos vivos.
      E obrigada você por esse comentário lindo.
      Beijo♥

      Excluir
  6. Preciso falar que chorei de emoção? Sim, preciso! A história da sua avó é simplesmente linda, mesmo sem a conhecer me orgulhei da persistência dela e da menina que se tornou mulher para ajudá-la a vencer. Tive uma amiga que passou pela mesma situação, mas infelizmente não conseguiu vencer. Como sempre, um texto lindo em um blog lindo. Parabéns Camila! E dá um abraço nessas duas fortes mulheres por mim, rs.

    http://doisjeitos.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Há Vitória fico feliz que a vitória da minha avó te deixou emocionada. E a menina é minha tia, a última filha da minha avó e olha posso dizer que essa coisa de lutar está no sangue mesmo viu.
      Sinto muito por sua amiga que infelizmente não conseguiu vencer, mas tenho certeza que lutou ao máximo, mas Deus é que sabe das coisas né.
      Pode deixar que vou enviar os abraços.
      Beijo e obrigada por todo o carinho. ♥

      Excluir
  7. Fiquei emocionada, que história linda. Mais ainda por saber que aconteceu com a tua avó e que ela conseguiu vencer. Que mulher guerreira que ela deve ser! Amei o post, foi um dos melhores que li, referente ao Outubro Rosa. <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pode ter certeza que minha avó está muito feliz ao saber que a simples história dela ganhou voz pra muita gente. ♥
      E obrigada pelo carinho Jonara.
      Beijo

      Excluir
  8. Cah eu nem vou falar muita coisa por que né, chorão é complicado. Enfim...Obrigado pelo texto, por compartilhar essa historia que sem duvida fala por muitas outras mulheres passando pela mesma situação. Por favor, quando puder dê um beijo em sua avó por mim...Diga que ...Não diga nada, só a beije mesmo ;)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nem precisa Thato sou chorona também, e acredite chorei muito ao escrever esse texto e lembrar de todos os momentos que ela passou.
      E pode deixar que vou abraça-la e beija-la muito. ♥
      Beijo

      Excluir

Germine aqui um pouco de amor. ♥