quarta-feira, 21 de outubro de 2015

MEU VELHO MOLETOM


Engraçado como a vida gosta de sacanear. Hoje foi um dia daqueles, do tipo que mereciam um óscar no quesito merdas que acontecem. Confesso que não ligo muito quando o assunto é moda, gosto de vestir aquilo que me faz bem, mas hoje resolvi que qualquer resquício de dignidade que ainda me restava seria apagado por uma calça jeans desbota e um moletom antigo que curiosamente me serve de abrigo das pessoas chatas desde 2010. Cara lavada e um coque daqueles que avisam "não sou obrigada". 

No trabalho evitei contato visual com qualquer pessoa, foquei todo meu mal humor nas inúmeras planinhas que precisavam ser organizadas, nunca desejei tanto que as horas passassem voando. Contei os minutos finais como se estivesse em alguma dessas provas de maratonas. Quando o relógio deu seu último tic-tac liberando minha alforria puxei minha bolsa e sai com pressa. No estacionamento enquanto todos entravam dentro de seus carros confortáveis minha boca se mexia sozinha em um provável resmungo por eu nunca ter me interessado em aprender a dirigir. O que me aguardava era um metrô lotado, com pessoas perdendo a humanidade, se espremendo e empurrando umas as outras para chegar cinco minutos antes do previsto. Foi nessa hora que ergui a cabeça e te vi parado me encarando com aqueles olhos que já haviam sidos esquecidos em algum lugar aqui dentro.

"Puta que pariu, é sério isso?". Pensei enquanto meus pés de alguma forma assustadora não correspondiam aos meus comandos. Fiquei em xoque, como você pode fazer isso. Como a vida pode fazer isso? Se aquilo fosse um filme ou série aquele momento seria a hora em que o apresentador sairia de trás de algum carro e falaria que era tudo uma pegadinha, mas era só a vida me sacaneando, a vida, você, e eu com meu moletom velho. Como uma pessoa pode sumir da sua vida com um até logo, e depois reaparecer com um sorrindo desconstruindo todos esses anos de raiva acumulada aqui dentro do peito. Enquanto me enchia de argumentos ridículos para fugir em uma cena patética, fui surpreendida quando nossos olhos estavam mais próximos do que segundos passados.

-Oi, tudo bem?
-Oi, tuudo, e você?
Até uma criança aprendendo a falar teria se saído melhor que eu naquele momento. Você fez um sinal com a cabeça, tentando lembrar as minhas pernas como se andava. Enquanto voltava ao controle do meu corpo, minha respiração oscilava muito mais que a bolsa de valores, você notou meu desespero, misturado com confusão e apenas me puxou pelo braço tentando relembrar os velhos tempos em que voltávamos pra casa juntos depois das aulas de redação, senti minha bochechas corarem no mesmo compasso que puxei o corpo para trás, era muita informação rolando naquele momento. 
-Tudo bem? Calma. Já fizemos isso antes lembra?

Você e seus 32 dentes maravilhosos abriram um sorriso tentando me acalmar, e em um pequeno deslize meus olhos se sentiram confiantes demais para te encararem. Era você mesmo, bem ali diante dos meus olhos, o mesmo cara de 2013, um pouco mais forte, com uma barba que parecia ter sido feita para enfeitar esse rosto que a tempos não via. Suas mãos ainda eram as mesmas que meu corpo se recordava. As roupas certamente melhoraram, a última vez que nos vimos, você fazia mais o estilo skatista nada que pudesse lembrar o homem que segurava meus braços. Foi aí que caiu minha ficha (ô bicha lenta), você todo lindo parecendo um deus grego, e eu de jeans, coque e um moletom que você certamente lembraria, obrigada vida por isso.

Enquanto caminhávamos pela Paulista você começou a me contar por onde seus pés havia estado, de como esses dois anos haviam sido generosos contigo, como a Irlanda era linda e como fez falta minha presença na paisagem, contou sobre o emprego novo e o tanto de coisas que teve que abrir mão para chegar onde queria (eu bem sei disso), falou sobre como a casa estava sempre cheia, mas o coração continuava vazio, falou que estava feliz ao me reencontrar e de como eu continuava do mesmo jeito que se lembrava, e de que aquele moletom te trazia muitas lembranças.
Quando chegamos no Masp e a sua vida e as coisas novas te deram um respiro para me olhar de novo, juntei aquela coragem que havia me faltado naquele domingo de sol, parei na sua frente e por incrível que pareça pela primeira vez me senti maior do que você, te dei um beijo no rosto e senti novamente teu perfume, sorri e continuei minha caminhada, percebi que seus passos tentaram me acompanhar, mas você havia entendido o recado.

Entrei na Starbucks pedi um café, sentei a beira da janela e fiquei pensando no dia incrível que a vida tinha me proporcionado, daqueles que só meu velho moletom  merecia. Daqueles que só quem aprendeu caindo saberia apreciar. Fiquei feliz por te ver bem, juro. Mas fiquei ainda mais feliz por saber que passou, que a mágoa esvaziou, que apesar do seu perfume continuar tendo um cheiro maravilhoso ele já não gruda mais aqui, entende? Eu até poderia ter te ficado mais, ter te convidado para o café, mas é que apesar de não ter notado, eu mudei sim e a única que ficou do passado foi meu velho moletom. 

12 comentários :

  1. "Fiquei feliz por te ver bem, juro. Mas fiquei ainda mais feliz por saber que passou, que a mágoa esvaziou, que apesar do seu perfume continuar tendo um cheiro maravilhoso ele já não gruda mais aqui, entende?" Que texto maravilhoso dona moça ♥

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  2. Que texto lindo, estou apaixonada por ele. O final é extremamente lindo ;; "Eu até poderia ter te ficado mais, ter te convidado para o café, mas é que apesar de não ter notado, eu mudei sim e a única que ficou do passado foi meu velho moletom." Sempre temos algo do passado né?! Mas é bom vermos o quanto mudamos. (: Amei. Beijoos Camila ♡♡

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    1. É verdade sempre tem aquele pedacinho do passado pra dizer que foi bom, mas que passou né?!
      Fico feliz que tenha gostado.
      Beijo

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  3. Que lindo, Cami, essa última frase ficou maravilhosa. A gente muda, apesar de por fora a metamorfose ser mais lenta e não aparentar tanto, por dentro é constante a transformação. E essa sensação de libertação da mágoa é maravilhosa! Um beijoooo

    Com carinho, Beca; Café de Beira de Estrada

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    1. Verdade ás vezes as coisas são um pouco mais lentas né?!
      Que bom que gostou.
      Beijo♥

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  4. Amei o texto,com tempo vamos aprendendo a viver sem uma certa pessoa que um dia não nos fez bem e quando ela retorna já não sentimos absolutamente mais nada.
    Muito lindo seu texto *-* como sempre kkk
    Bjnhs

    http://karoline-caro-sonhador.blogspot.com/2015/10/pedras-preciosas.html

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    1. Verdade Karol, as coisas mudam assim como as pessoas e sentimentos.
      Que bom que gostou, beijo. ♥

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  5. Ameeei o teu texto! <3 Tenho o dom de encontrar as pessoas nos dias em que to mais acabada. hahaha Essa sensação de rever alguém e perceber que não significa mais nada é libertadora. Meu namorado esteve na Irlanda, passou um ano lá. Antes disso éramos só amigos. Quando ele voltou, começamos a ficar e depois, a namorar. Também achei que ele voltou se vestindo melhor e que a barba que deixou crescer enfeitou muito bem o rosto dele. Pelo jeito, a Irlanda deixa as pessoas mais bonitas. hahaha Beijão!

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    1. Há que bom que gostou Jonara. ♥
      Acho que esse é um dos melhores sentimentos para quem demorou a se recuperar né!?
      Aí que história legal a sua, e acho que você tem razão a Irlanda deixa as pessoas mais bonitas.
      Beijo

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  6. Gente, que texto incrível! E o final ficou mais maravilhoso ainda. Me identifiquei até com o fato de que quando a gente não se arruma, encontramos com alguém hahahha parece um carma. E é incrível quando a gente percebe que conseguiu superar algo do passado que já não era bom. Ficam as boas lembranças, mas a mudança é melhor ainda. Lindo lindo <3

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    1. Parece carma mesmo Mari rs.
      Acho que é a sensação mais libertadora saber que no peito só tem lembranças boas né.
      Fico feliz que tenha gostado.
      Beijo ♥

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Germine aqui um pouco de amor. ♥