08 setembro 2015

DESVENTURAS EM SÉRIES


Há dias que é melhor nem tirar o corpo da cama, hoje era o dia dela sentir em cada detalhe essa frase. Acordou cedo ou nem dormiu direito, ela nunca sabia se a noite realmente era feita pra sonhar, pensava muito, sua cabeça não funcionava igual à de todo mundo, não conseguia parar de pensar, seus pensamentos criavam vida própria, com isso ela acumulava muitas noites mal dormidas. Mal saiu da cama e bateu o dedinho do pé na quina do criado mudo, sentiu vontade de gritar, mas respirou fundo e continuou a andar. Lavou o rosto, e olhou aquele ser pálido no espelho, fez um coque no cabelo e foi tomar seu banho matinal, era no chuveiro que seus pensamentos criavam vida, eram tantos e tão reais que bastava se concentrar um pouco que conseguia vê-los passear em sua casa. Pensou nas contas que tinha que pagar, no cachorro que sempre quis ter, no nome que daria a ele, qual ração que compraria, na vizinha de cima que reclamaria dos latidos do pobre animal, pensou que deixaria ele se perder em um descuido qualquer, e que provavelmente um carro o atropelaria em plena avenida, de repente se viu triste pela morte de um cachorro que de fato nem existia. Era terrível ser dominada por tantos pensamentos inesperados em pequenas frações de segundos. Ela vivia nessa confusão de palavras soltas á 20 anos, nunca conseguira colocar ordem na bagunça que era sua cabeça.

Pôs um vestido que se sua mãe visse diria que era da época de sua avó, passou o mesmo batom de sempre, uma cor que não lembrava nada, pôs sua velha sapatilha o que a fez lembrar que precisava comprar meias novas, pegou sua bolsa laranja desbotada de tanto tomar sol e chuva, pegou suas chaves e entrou no elevador. Apertou o térreo e ficou a se olhar no espelho que a lembrava de que também precisava dar um jeito em seu cabelo, não demorou muito pra perceber que o elevador não havia saído do lugar, apertou de novo o botão e nada aconteceu, ficou ali parada pensando se chamava seu Zé da portaria, ou se descia os 11 lances de escada, olhou para o relógio e viu que já estava atrasa, respirou fundo sentiu de novo aquela vontade de gritar, mas ao invés disso foi para as escadas. Chegou ao trabalho em cima da hora, lembrou que havia esquecido o relatório na mesa de casa, quase chorou, sentou e ficou ali parada a olhar o computador, como se talvez em um passe de magica o relatório apareceria na tela lhe dizendo bom dia.

Ela parecia a Alice do país das Maravilhas* nos tempos de hoje, nunca se encontrava e vivia correndo atrás de um coelho que só existia dentro dos livros e em seus vagos pensamentos, sua mãe a chamava de cabeça de andorinha, pois ela sempre estava em outro mundo. Parecia que o botão que a conectava com a realidade fora esquecido de ser instalado.
Enquanto seu chefe lhe oferecia um sermão rotineiro ela pensava no livro que tinha capa preta da biblioteca central, nunca tinha visto um livro sem palavra alguma, queria sair para poder ir busca-lo, mas ainda assim continuava sentada na frente de seu computador enquanto seu chefe despejava palavras sem sentindo.
Tudo com ela era exatamente assim, acumulava desejos como acumulava noites mal dormidas, seu copo sempre estava cheio, mas nunca transbordava, sempre conseguia guardar mais uma gota. Assim sorria toda vez que algo a incomodava, como se precisasse estar bem, tinha medo que sua felicidade pudesse incomodar alguém.

Após seu chefe ter descontado todo o seu constante mal humor ela saiu para tomar um café, andando vagarosamente entre os poucos espaços de um corredor para o outro, chegou até o final da sala, pegou uma moeda e colocou na máquina, pediu um café, queimou a ponta dos dedos e logo em seguida a língua, o que fez sussurrar um grito, e percebeu que o café estava extremamente amargo, sentiu vontade de tacar o copo na parede e gritar “eu pedi com açúcar”, mas apenas caminhou de volta para seu lugar. Trabalhou se cansou, e finalmente quando viu o relógio marcar 18:30 h se sentiu aliviada por aquele dia chegar ao final, e lembrou que tinha que comprar tomates.

Na rua sentiu os primeiros pingos gelados cair por cima de sua pele, e pensou mais uma chuva que sua bolsa ganharia, andou apressada até o ponto e sentia que a chuva vinha com pressa também, tropeçou quase caiu, mas se recompôs, e quando pensava em sua cabeça "está tudo bem", um carro desenfreado ou simplesmente malvado passou com tudo em uma bela poça que tinha a direção certeira da nossa cabeça de andorinha, no mesmo instante a chuva se alastrou com força, ela tentou respirar, mas pela primeira vez em 20 anos não conseguiu, caiu no chão e sentada gritou NÃO, chorou e seu choro se confundiu entre os milhares de pingos que caia sobre ela. Poderíamos dizer que foi apenas desventuras em séries, mas finalmente o seu copo havia transbordado e pela primeira vez em meio a soluços de choros sentiu alegria.

16 comentários:

  1. eita eita, li e reli 3x (chorei em todas), obrigada por compartilhar tuas palavras com a gente, Camilla. Parece que cê tava me observando por esses dias hahaa
    "ela nunca sabia se a noite realmente era feita pra sonhar" posso tatuar isso? <3
    rhuanytta.com

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    1. Aí Rhu nunca sei como responder seus comentários.
      Juro que não estava te observando rs.
      Mas fico feliz que minhas palavras de alguma forma meia louca façam sentido para você.
      E pode tatuar sim rs.
      Beijos ♥

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  2. Então moça, você me descreve quase sempre nos seus textos, acho que assim como a Rhu, cê anda nos observando viu? Sempre têm esses malditos dias de mais ou menos que nos esgota né? Ultimamente os meus andam assim, o que é uma saco, mas nada comparado ao seu texto, porque ele ficou incrível aehiaueh ♥

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    1. Há Kelly, acho que nossa vida no dia a dia se realmente fossemos por no lápis daria muito mais que um livro não é mesmo?!
      E juro que fico feliz (não em partes) quando meus textos trazem algo de quem os lê. Espero que daqui pra frente eles seja com momentos melhores.
      Beijos e fico feliz que tenha gostado. ♥

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  3. Que lindo!!!
    Amei o final... soluçar de chorar, mas de alegria, é uma das melhores coisas do planeta, né? :)
    Parabéns pelo texto!!

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    1. Oi Jéssica.
      Que bom que gostou do texto.
      Verdade né, chorar de soluçar de alegria é o melhor choro que existe.
      Beijos ♥

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  4. Simplesmente incrível. Descreveu perfeitamente aqueles dias em que tudo parece dar errado nos mínimos detalhes, desde a hora que a gente levanta e quando pensamos: "o que mais pode dar errado?" O final foi melhor ainda. Gostei muito, Cami!
    Beijos.

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    1. Haaa Mari fico tão feliz por ver seu comentário.
      Realmente existe certos dias que é melhor a gente nem levantar né.
      Obrigada Mari.
      Beijos ♥

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  5. Haha chorei e ri. Feliz por ter vc na minha vida e por poder me distrair e viajar nas suas palavras. Amei. Beijo.

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    1. Há Ma se eu pensasse mais um pouco diria que você era a moça do texto, se fosse neurótica aí com certeza seria você rs.
      Feliz sou eu que tenho uma esclerosada pra chamar de minha. ♥

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  6. Que descrição incrível de um dia, seus instantes, suas desventuras, aflições... Uma cabeça que não parava.
    Fiquei aflita com todo o dia. Seu texto tem um quê de verdade, de vida de verdade. Muito bacana essa escrita. Muito, muito.

    Beijão

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    1. Há Magda fico muito feliz quando vejo algum comentário seu aqui no blog.
      E ainda mais quando gosta de algo.
      Obrigada, bjo. ♥

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  7. Posso confessar que fiquei arrepiada e chorei? Mas não conta para mais ningué, por favor, é só sensibilidade da tpm, eu juro! É exatamente assim, em alguns momentos a gente tem que transbordar ou tudo fica atolado demais, ou a gente se afoga nos nossos próprios desejos e frustrações. Essa garota parece comigo, até no azar e no desastre rs, mas viver na linha tênue da borda do copo não vale a pena. Ai, eu sou péssima com comentários, principalmente quando gosto tanto do que foi escrito! Você já sabe né? Que tenho um carinho gigante por seu blog e seus textos, Cami. Um beijo!

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    1. Prometo que não conto. Até porque também estou na TPM e super entendo como você está se sentindo.
      E sobre quase trasbordar acho que essa é a pior sensação do mundo, porque quase não é nada.
      Se você é péssima em comentários sou aquela que adora comentários ruins rs.
      Beijos ♥

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  8. Relendo esse texto só porque ele expressa tudo o que eu tenho sentido e atualmente é o seu meu texto favorito <3 Um beijo s2
    haha

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Germine aqui um pouco de amor. ♥