18 junho 2015

100 DIAS SEM ELA: 8º DIA




E de repente as duas da madrugada ela resolve me ligar, com aquela voz em um tom melancólico e suave. No inicio sua voz era viva, alegre, assim como todo o resto dela, mas nos últimos tempos ficou fria, dissimulada, arrogante e em sua maioria melancólica. Ainda assim ouvir sua voz depois de uma semana sem nenhuma notícia fez um estrago na pouca estrutura que me restara. 
Dormir depois de ser invadido por aquela ligação foi impossível, disquei inúmeras vezes o telefone dela durante a madrugada, mas em todas desliguei antes de ouvir o primeiro chamado da linha, e dessa vez não era por orgulho, não tinha ideia do que dizer. A verdade é que não queria dizer nada, só queria continuar a escutar sua respiração do outro lado da linha, só queria aquietar esse turbilhão de sentimentos que ela ativou dentro do meu peito desde que me devolveu as chaves do apartamento. 
Levantei, tomei banho, arrumei a cama que quase não estava desarrumada. Minha casa voltou a ser organizada e solitária, as cores ainda estavam lá, mas o brilho era ela que fazia. Olhei o relógio e percebi que estava atrasado, peguei as chaves do carro e sai. 
Parei na padaria perto do escritório e pedi um expresso. Ao meu lado tinha um casal tomando seu café da manhã. Ele foleava o jornal, provavelmente lia algo sobre a economia brasileira, ela mexia em seu celular conversando com alguma amiga, o café dos dois esfriava, assim como a relação deles. Daqui alguns dias ele não notaria o cabelo novo dela. Ela não ligaria para o atraso repentino dele, até que passar dos dias os dois encontraria no final a melhor saída de manter algo ainda que por coleguismo. Fui surpreendido com a mão estendida da atendente para me dar o café, percebi que talvez estivesse assim a algum tempo, pedi desculpas meio sem graça. Tomei meu café enquanto admirava duas pessoas conhecidas se tornarem completos desconhecidos.
Enquanto digitava e conferia algumas planinhas, meus ouvidos brincavam com minha sanidade. Aquela voz baixa, tremula se recusavam a sumir dos pensamentos. Estava difícil qualquer tipo de concentração, levantei e fui buscar um café. Avistei um casal que acreditava que ninguém naquele andar sabiam que eram um "casal", ela balançava as mãos em um gesto compulsivo mostrando uma agressividade sútil, enquanto ele passava a mãos nos cabelos a encarando de lado, desviando qualquer contato intimo. Imaginei que a briga fosse porque ela estaria cansada de um "relacionamento" as escuras, e ele por ainda não se sentir seguro suficiente, ou vice-versa. Caminhei lentamente com a cabeça a baixada, disse um oi que quase não saiu, peguei meu café e voltei para minha mesa.
Percebi que inconscientemente estava vendo o fim de todos os casais que meus olhos se deparam naquele dia. Pensei que poderia ser uma inveja escondida lá no fundo do peito, talvez raiva dos românticos de plantão, ou aquele ódio que foi revestido de amor e de repente se viu nu e com frio, talvez, só talvez fosse a realidade da vida. Amores que se esvaziam, corações que trocam suas peças de encaixe, há também aqueles como o dela que "descobrem" que não se encaixam em ninguém porque o assedente não bate. 
É fácil imaginar as razões porque o amor do vizinho não durou mais que aquele filme que eles amavam, que azedou antes do doce preferido, que esfriou mesmo estando no verão. Difícil é aceitar que o nosso para sempre durou até o meio do livro, que o nós virou nós e enrolou tudo. Que o amor da gente ficou bonito só naquele texto que ela escreveu no fim do ano pra dizer que nos próximos 365 dias ainda me amaria, difícil é saber que só bebo café extra forte para esquecer o doce dela. Dolorido é bater no peito e admitir a culpa por não ter equilibrado as coisas quando ela jogou sujo e desceu do palco antes da cena acabar.
Antes de voltar para casa passei no parque. Sentei nos velhos bancos, e por um momento me peguei rindo sozinho. Lembrei de como tudo sempre tinha uma história do porquê "existir" até mesmo os bancos velhos e enferrujados. A vida ao lado dela tinha mais gosto de vida, era como se sem ela eu só respirasse. Sei que é triste perder a existência depois de perder uma pessoa, mas gostaria de ver quem ai tem coragem e franqueza de bater no peito e dizer que nunca perdeu se quer uma parcela sua ao perder um grande amor, e não estou me referindo a esses amores de meses ou dias, estou falando daquele amor que te sufoca o peito até perceber que o ar está no outro e não na atmosfera, e então tem alguém ai?
Lembrei de todas as tardes que passamos rindo e brincando nesse mesmo parque, correndo atrás dos pombos, alisando todos os cachorros, sorrindo para crianças sardentas com suas bocas tão melequentas e imaginando como seria quando tivéssemos a nossa família, e se nossos filhos seriam tão bagunçados igual a ela. Senti uma dor incontrolável dentro do peito, como se tivesse perdido uma família que nunca existiu. Achei que não aguentaria chegar em casa, mas aguentei.
É feio dizer que em pleno 25 anos chorei feito criança que se perdeu? Provavelmente sim. Mas foi isso que aconteceu chorei amargamente. Chorei de doer os olhos, o nariz, o peito e todo resto do corpo, chorei de soluçar e parecer que alguém havia morrido, de fato morreu. Aqui jaz nosso amor que foi belo, intenso, eufórico e colorido, mas que sabe se la deus e os astros teve fim.
Fui para o chuveiro, talvez de baixo de tanta água fosse plausível um homem de 1,90m derrubar tantas águas, pensei que minha dor pudessem descer pelo ralo assim como minhas lágrimas.


Esse foi o 8º dia sem ela.

Chegou agora? Que tal ler os primeiros dias sem ela.
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2 comentários:

  1. Que triste,dá uma vontade de abraçar ele rsrs.A verdade é que os relacionamentos feitos para durar "para sempre",sobrevivem a uma semana ou a um mês e isso causa dor,a perda repentina de alguém de quem nosso coração precisava,mas a gente pensa que não vai parar de doer e um dia para,o tempo cura tudo.
    Espero ansiosa o próximo capítulo :D
    Beijos ^.^

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    Respostas
    1. Sempre passa né?! Mas o difícil é o esperar passar.
      Beijos

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Germine aqui um pouco de amor. ♥