terça-feira, 4 de novembro de 2014

O AMOR-PARTE II


Fazia sol naquela tarde exatamente como os outros dias daquela doce semana. Após um longo e cansativo dia estava finalmente em meu doce lugar. Gostava daquele lugar, porque ali os dias estressantes ficavam para trás.
Ali podia me esconder de mim mesmo, podia deixar o velho e aceitar o novo, aquele era meu lugar.
Sentei-me um pouco afastado, gostava de ver a agitação das pessoas em torno do rio, gostava de admirar a paisagem por cada detalhe. Logo a notei chegando, usava uma calça jeans bem desbota por sinal, uma blusa de uniforme, e uma mochila que se arrastava assim como ela.
Deveria ter uns 20 anos no máximo tinha cabelos longos pretos, uma tiara vermelha enfeitava e impedia que a brisa bagunçasse seus cabelos, tinha olhos castanhos e pele levemente branca.
Sentou um pouco distante de mim, olhou o rio tão serenamente, suspirou. Um suspiro que classifiquei ser de nível agudo fechou os olhos e assim permaneceu até que me sentei ao seu lado.
Achei que ela precisava de um sorriso, por isso sorri pra ela que gentilmente me devolveu com outro sorriso. Ela foi rápida, mas percebi que me olhou meio de rabo de olho, sabe quando quer olhar, mas precisa disfarçar. Foi esse olhar que ela me lançou, deve ter me achado um velho chato, talvez ela quem sempre estivesse certa.
Tenho certeza que a incomodei, assim como tinha meu espaço, notei que aquele era o dela. Mas vi que ela precisava de ajuda, os olhos tristonhos dela me diziam isto, peguei calmamente meu cigarro dei um trago, ela sorriu e disse:
-Você deveria parar.
-Você também minha jovem. Respondi sorrindo.
Percebi que ela não havia entendido o que disse.
-Eu não fumo.
-Esse talvez não, mas vejo que fuma um bem pior.
Senti que a irritei, os olhos dela não conseguiam esconder, ela respondeu um pouco áspera que não fumava e nem bebia.
-Minha cara será que ainda não percebeu qual é o seu vício?
-Não. Não percebi, mas algo me diz que você vai me dizer não é mesmo?! Ela respondeu-me com um tom irônico.
Lembro-me de estar escrevendo algo na grama, levantei o rosto e abri minha alma para ela.
-Seu vício minha pequena é amar.
Achei que havia invadido demais o seu espaço, quis ir embora, deixá-la ficar com seu silêncio, mas fiquei.
-Como sabe disse?
-já vivi um pouco dessa vida, pude ver nos seus olhos assim que chegou.
-Queria te dizer que esse é o melhor vício que você poderia ter, mas ao ver esses marejados e tão tristonhos olhos presumo que já tenha descoberto que amar é uma droga, e ao olhar pela sua tão doce mocidade diria que não é a primeira vez que o amor te parte ao meio.
-Não, não é. Com a voz fraca ela respondeu.
-Sei muito bem como é sofrer disso.
-Você ainda ama?
-Não minha pequena, livrei-me desse mal.
-Me diga como fez parar?
-Não fiz. Respondi triste.-
Não entendo.
-Um dia você entenderá um dia todos nós entenderemos.
Não podia explicar para aquela menina que tive meu coração tantas vezes machucado, que tantas vezes tive mais feridas do que remédio para curá-las que preferi então me deixar não sentir. Ela era jovem demais para ter os sonhos destruídos por um velho bobão.
-E então me diga o que faço com essa dor toda?
-Você a vive meu bem, cada minuto dela, cada estilhaço que te penetrar cada ferida que sangrar cada música que te doer, cada palavra que te fará lembrar tudo outra vez. Você vive meu bem!
-Mas isso continuará a me matar cada dia um pouco mais.
-Sim te matará.
-E é isso? Estou fardada a morrer dessa droga de amar?
-Sim todos nós.
-Eu não aceito, não concordo. Esbravejou.
-E é por não concordar que depois de morrer desse mal, você renascerá dele e para ele.
Após dizer isso voltei a mexer na grama, entendi naquele momento, naquela tarde, naquela conversa com a menina de olhos tristonhos que também precisava morrer para uma vez mais renascer.
Não falamos mais nada, deixamos o silêncio nos pertencer de novo. Ficamos ali admirando o todo por completo morríamos e pela primeira vez isso me era lindo.

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