04 novembro 2014

O AMOR- PARTE I

Sentei-me um pouco afasta das margens do rio. Nunca gostava de me aproximar, sempre achei que a paisagem ficava mais bonita quando apreciada de certa distância. Afinal quando se está muito perto, só se consegue ver superficialmente, porém quando se está mais longe se consegue ver a obra como um todo.
Ali era meu lugar preferido. Lugar onde me refugiava de tudo e todos. Quase sempre sentava em meio ás árvores e não pensava em mais nada. 
Era como se minha mente sofresse algum tipo de bloqueio naquele lugar. Sentava e ficava observando a brisa leve que vez outra tocava com tamanha delicadeza ás águas do pequeno rio, de repente senti alguém do meu lado, abri os olhos era um velho, não muito. 
Deveria ter em volta dos seus 48 anos, cabelos grisalhos, sorriso meio amarelado, olhos pequenos. Sentou-se e sorriu, retribui o sorriso, mas confesso que havia ficado um pouco irritada, afinal era um parque enorme, porque tinha que se sentar no meu lugar? Fechei os olhos novamente para resgatar os pensamentos.
O velho, no entanto não parecia querer me ajudar no silêncio, respirou fundo puxando o ar com certa dificuldade para seus fracos pulmões, digo fraco porque era visível que ele fumava, olhei-o e disse “Você deveria parar”, ele por sua vez sorriu e disse “você também.”, dei uma risada e respondi que não fumava. 
Ele pegou um cigarro, acendeu e deu um trago e me disse “esse talvez não, mas vejo que fuma um pior, a menina bem pior”. 
Balancei a cabeça e pensei comigo “era só o que faltava, mais um louco”.
Ele sorriu e me perguntou há quanto tempo eu estava viciada. Confesso que não sou de tratar com indelicadeza as pessoas ainda mais se tratando de velhos, mas não consegui ser educada no meu tom de voz, e respondi:
- Eu já disse que não fumo, e pra ficar mais claro não bebo também, portanto não sou viciada. 
Ele sorrindo me disse:
- Minha cara, será que ainda não percebeu qual é o seu vício?
- Não. Não percebi, mas algo me diz que vai me dizer não é mesmo? Respondi grosseiramente.
O velho rabiscava a grama com um pequeno graveto, parou, ergueu a cabeça me encarou e sorriu um dos sorrisos mais bonitos que pude ver na minha vida.
-Seu vício é amar minha pequena.
Não falou mais nada, tive vontade de me levantar e deixar aquele velho com suas baboseiras, no entanto fiquei.
- Como sabe disso?
- Vi nos seus olhos assim que chegou aqui. Sabe menina queria dizer que esse é o melhor vício que poderia ter na vida, mas por esses olhos marejados e tristonhos presumo que já tenha descoberto que amar é uma droga. E pela sua idade diria que não é a primeira vez que o amor te parte ao meio. 
- Não, não é. Respondi com um ar mais triste.
- Sei bem como é isso, acredite.
-Você ainda ama?
-Há minha cara, deixei esse mal a muito atrás.
-E como fez isso parar?
-Não fiz. Respondeu ele com um pesar.
-Não entendo. Um dia você entenderá.
-E o que faço com essa dor toda?
-Você a vive meu bem, cada minuto dela, cada estilhaço que te penetrar cada ferida que sangrar cada música que te doer, cada palavra que te fará lembrar tudo outra vez.
-Mas isso me matará, cada dia um pouco mais.
-Sim te matará.
-Mas e depois? É isso. Estou fardada a morrer?
-Todos nós meu bem.
-Não concordo, não está certo isso. Respondi com revolta.
-E é por não concordar que depois de morrer desse mal, você renascerá dele e para ele novamente. Respondeu o velho que logo depois voltou a cutucar a grama com o pequeno graveto.
Ficamos ali sentados cada um com sua dor admirando o todo com novos olhos eu diria.

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