quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O AMOR PARTE- FINAL


Era um parque como outro qualquer se não fosse o parque deles dois. Isso era mais que suficiente para não ser apenas mais um parque. Aquele era o lugar que um se escondia e o outro se encontrava. Era o lugar da calmaria dela, o lugar de agitação dele. Era o santuário de ambos.
Não passava das 16:00h quando ele sentou-se em um apedra grande.
Fazia calor aquele dia, mas como era verão ás vezes dava pra sentir uma leve brisa vinda do sul. Sentou e ficou olhando as pessoas conversarem em volta do pequeno riacho. Ele tinha exato 50 anos de uma vida que só pode dizer levemente aproveitada, cabelo visivelmente grisalho, leves rugas na altura dos olhos apesar de tudo o tempo havia sido generoso com ele, sua pele era parda que combinava com o clima tropical, era de sorriso fácil, um tanto amarelado assim como suas unhas, mas sorria com a alma que era branca.
Gostava de estar ali, era o momento em que se esquecia de quem era e do que nunca conseguiu ser, ali sentado naquela pedra ele era apenas ele.
Enquanto ele olhava as pessoas e suas correrias, ela vinha do outro lado do parque em sua direção. Vinha com um andar lento, quase arrastado era como se a cabeça não conseguisse coordenar aquele pequeno corpo.
Ele a notou era quase impossível não notar alguém com tanta tristeza na alma.
Ela tinha 22 anos, pele branca, cabelos escuros, usava sempre a mesma tiara vermelho marfim, tinha olhos castanhos, mãos pequenas e delicadas.
Passou com pressa, sentou e nem notou que ele estava ao seu lado. Ele não era de puxar conversa, mas reconheceu nela alguém do passado. Levantou, caminhou de vagar e logo se sentou ao lado dela.
Os dois se olharam, ela com um olhar ferido e ele com um coração solidário. Então ambos sorriram.
Cuidadosamente cada um fez sua própria investigação a respeito do outro. Como se fosse possível conhecer alguém em poucos segundos.
Ele pegou um cigarro de dentro da sua camisa, acendeu e com certa dificuldade inalou aquela fumaça jogando para fora logo em seguida. Ela detestava cigarro, fez um sinal com a mão para afastar a fumaça e disse:
-Você deveria parar com isso.
-Iria dizer o mesmo jovem.
Ela ficou meio confusa, além de tê-lo achado um velho intrometido agora pensava que talvez fosse louco. E para que a conversa não se prolongasse ela resolveu responder um tanto mal educada.
-Eu não fumo.
-Esse talvez não, mas vejo que fuma um pior, a minha jovem com certeza um bem pior.
Ele sorriu percebendo que ela havia ficado nervosa. Ela ríspida respondeu que não fumava e nem bebia, a fim de cortar qualquer assunto adiante.
-Minha cara será que ainda não descobriu qual é o seu vício?
-Não, não percebi, mas algo me diz que você vai dizer não é mesmo? Falou já sem paciência alguma.
Ele com a tranquilidade de uma vida mais vivida desenhava na grama uma palavra que se eu tivesse chegado mais perto eu diria que era uma palavra que ele já não usava a um bom tempo. Olhou-a como se quisesse descarregar uma vida inteira naquele sorriso.
-Seu vício minha pequena é amar.
Naquele momento ambos perceberam que tinham tido seu tão sagrado espaço violado, e não estou dizendo das margens do parque, ambos haviam ultrapassado as barreiras de dois corações quebrados. Ela então quebrou o pequeno silêncio.
-Como sabe disso?
Ele com alguns anos a sua frente, sabia o aquele pesar queria dizer.
-Vivi um pouco dessa amarga vida, pude perceber assim que chegou aqui. Também queria te dizer que esse é o melhor vício que poderia querer, mas olhando seus olhos tão marejados e tristonhos presumo que já tenha descoberto que amar é uma droga. E vendo sua mocidade diria não é a primeira vez que o amor te parte ao meio.
-Não, não é. Respondeu com os olhos inundados por terríveis lágrimas.
-Sei como é isso há como sei.
-Você ainda ama?
-Não meu bem, desse mal não morro mais.
-E como fez parar? Travou o choro na esperança de ouvir alguma formula mágica que aliviasse sua dor.
-Não fiz.
Ele percebeu que ela havia ficado decepcionada, mas ele achou que não era justo ensina-la a bulhar as regras antes de mergulhar de verdade.
-Não entendo. Esbravejou.
-Um dia entenderá todos nós entenderemos. Falou com certa esperança na voz.
-Então me diga o que faço com toda essa dor?
-Você vive meu bem, cada minuto dela, cada estilhaço que te penetrar cada ferida que sangrar cada música que doer cada palavra que te fará lembrar tudo outra vez. Você vive.
-Isso me matará ao poucos.
-Sim te matará.
-E é isso? Estou fadada a morrer desse mal.
-Sim todos nós. Ele respondeu com a voz rouca.
-Eu não aceito, não concordo. Gritou ela.
-E é por não concordar que depois de morrer que você renascerá dele e para ele.
Naquele momento ambos de formas diferentes entenderam que o amor ainda que parta seu coração em mil pedaços ele mesmo te refará quantas vezes forem necessárias. E assim sem perceber naquela tarde morna eu conseguia ver ao longe dois corações renascendo se suas próprias cinzas.

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